Podemos representa umha alegria para muitas pessoas que aspiramos a derrubar o regime do 78. Por fim aparece umha alternativa espanhola de esquerda com possibilidades de ser hegemónica e que reúne, aliás, duas condiçons que a diferenciam das posiçons tradicionais do PCE. Por umha banda, a capacidade de integrar um patriotismo espanhol aparentemente progressista no discurso de esquerda. Pola outra, umha prática abertamente antirregime que nom porta as cangas do Partido Comunista e sucedâneos nem os seus vencelhos co statu quo.

É certo que Podemos, como estratégia estritamente eleitoralista, resulta mui criticável desde posiçons transformadoras. A sua actividade, claramente dirigista, centra-se no acaparamento das ânsias de mudança das classes populares para focá-las a objectivos institucionalistas regidos por umha vanguarda reduzida. Mas, doutro jeito, daria-se progressado tanto em tam pouco tempo num sistema desenhado para perpetuar o bipartidismo? E quando se opta por essa via eleitoralista, nom cumpre fazê-lo com aspiraçons de triunfo? Cavalgar as contradiçons, como gosta de repetir o seu secretário geral, parece constituir umha via complexa mas efectiva no actual contexto.

Podemos representa umha alegria para muitas pessoas que aspiramos a derrubar o regime do 78. Por fim aparece umha alternativa espanhola de esquerda com possibilidades de ser hegemónica e que reúne, aliás, duas condiçons que a diferenciam das posiçons tradicionais do PCE. 

Se calhar, o que mais chama à atençom deste novo partido é a sua capacidade de comunicaçom. Ser quem de transmitir o democrático que resulta o controlo público da economia, por exemplo, numha linguagem acessível e que burle a esteriotipaçom dos meios sistémicos produz certamente admiraçom. Noutro tom, quando os seus dirigentes se ponhem mais teóricos, abraia a coincidência de termos entre o seu discurso e o habitual no moderno soberanismo galego. Nom resulta estranho escuitar-lhes aos quadros da formaçom discursos que situam a Espanha como umha neocolónia alemá ou que teorizam a necessidade dum polo nacional-popular. A raiz desta coincidência nom é umha interacçom entre a experiência galega e a nova esquerda espanhola, como se puder pensar. Pola contra, provém dumha origem comum nos modelos latino-americanos. É o seguimento dessas referências o que coloca a soberania como eixo principal do discurso das novas esquerdas europeias em auge. Syriza achega quiçá o outro exemplo evidente. Já que o neoliberalismo emprega a mesma táctica que provou há décadas na América Latina, a do controlo pola dívida externa impagável, as esquerdas estatais europeias mais espilidas recorrem igualmente à resposta das suas homólogas de além mar.

Na tessitura em que nos encontramos, a criaçom dum espaço político-económico alternativo à iminente Europa do TTIP  enxerga-se vital para a viabilidade dos países da nossa contorna. Do mesmo jeito, o estímulo de formas de economia local coas que darmos ultrapassado a dependência das multinacionais e transnacionais converte-se num alvo prioritário para a supervivência das nossas sociedades. O mesmo acontece coa construçom de mecanismos de participaçom popular que superem a caduca democracia liberal, constituem o melhor jeito de garantirmos umha nova estabilidade institucional e, também assim, segurança económica. Neste sentido, sem entrarmos a valorizar as inevitáveis e decote gigantescas contradiçons que amostram Syriza e Podemos, cumpre apreciar os seus logros na batalha das ideias entre cada vez mais populaçom.

Outra característica comum às duas organizaçons constitui-a a revalorizaçom do Estado como ferramenta. Segue-se aqui igualmente o padrom bolivariano. Porém, eis também a sua maior diferença. A identidade que permite coerência anti-imperialista a umha Venezuela emancipada do império hispano ou a umha Grécia independizada do império turco bate na Espanha co papel de metrópole histórica como eixo do seu discurso nacional. Para mais, a existência de projectos nacionais alternativos converte num autêntico encaixe de bolilhos conformar um discurso espanhol democrático sem renunciar a abranger nele todo o Estado actual.

A construçom dumha nova ideia de pátria vira-se pois umha questom complexa mas fundamental para a nova esquerda espanhola. Como se elabora um discurso libertador se se pratica um outro negador da livre decisom dos povos nom integrados plenamente nesse projecto nacional? A soluçom histórica da «esquerda» das metrópoles europeias foi a da folclorizaçom das reivindicaçons democráticas dessas sociedades. Reduzi-las a umha questom identitária, sentimental, a um capricho que se consente temporalmente até a sua dissoluçom lenta mas inexorável no inquestionável marco unitário. O respeito ao património (o que nom é prático) que componhem os traços conservados (conservar implica que vam desaparecer) polos diferentes e a sua idiossincrasia (rarezas frente ao normal, o deles) costuma ser a tona de correcçom discursiva empregada para este fim. Assim mesmo, a elaboraçom de subterfúgios administrativos, descentralizaçom ou consultas acoutadas, constituem a prática maioritária para garantir os marcos territoriais ideais desse social-chauvinismo unionista. Destarte, a economia, o bem-estar e a democracia, o racional e pragmático, vinculam-se interesseiramente ao marco unitário face ao emocional, a identidade, que se liga aos outros projectos nacionais. Porém, os desenhos históricos de desigualdade interna sobre a populaçom desses territórios nom desaparecem porque se neguem. Em épocas de crise económica, aliás, pola vez de diluírem-se, como sempre predicou essa «esquerda» europeia chauvinista, agudizam-se.

A construçom dumha nova ideia de pátria vira-se pois umha questom complexa mas fundamental para a nova esquerda espanhola. Como se elabora um discurso libertador se se pratica um outro negador da livre decisom dos povos nom integrados plenamente nesse projecto nacional? A soluçom histórica da «esquerda» das metrópoles europeias foi a da folclorizaçom das reivindicaçons democráticas dessas sociedades.

Velaí que esse paradoxo tem no nosso caso um dos seus exemplos mais dramáticos. Além do galega ou espanhola que se poda sentir a cidadania que vive neste território, cobra as pensons mais baixas do Estado, loce o segundo posto em mortes por acidente laboral, recebe o salário por hora trabalhada mais reduzido, atura as jornadas laborais mais longas, paga as portagens de auto-estrada mais caras e, apesar de contar com umha refinaria, também aboa os preços do combustível mais altos. Ademais, padece a maior emigraçom, o índice de transtorno depressivo mais elevado, a segunda taxa de suicídios mais alta e alcança também a segunda posiçom em mortalidade. Por suposto, coroa-se campeá em saldo vegetativo negativo e conta coa populaçom mais avelhentada de toda a Europa. Com estes dados, cavilaríamos que falamos dumha estepe infernal e pobre de seu onde a gente se resigna morar quando nom lhe fica outra. Mas resulta que desta mesma área geográfica, apenas o 6% da superfície do reino borbónico, extrai-se o 15% da carne de ave de todo o Estado, o 17% de carne bovina, o 20% da carne de coelho, o 20% da electricidade renovável, o 30% da pataca, o 40% do leite, o 50% da madeira, o 60% da pesca, o 90% do granito e, surpreendentemente, o 45% da lousa de todo o planeta. Todo isto com umha produçom a meio gás mercê às políticas espanholas e europeias. Para mais abundamento, conta com um potencial geotérmico que permitiria quintuplicar a produçom eléctrica do Estado inteiro, coa mina de silício mais grande da Europa e está situada na principal via de comércio marítimo do continente.

Com certeza, independentemente dos sorrisos e bágoas que «La Roja» ou a «Irmandinha» causem entre a nossa  populaçom, o território em que habitamos goza ou padece umha economia radicalmente diferente da do resto do Estado espanhol. Polas suas características físicas e pola sua história, esta terra possui umhas potencialidades, umhas formas produtivas e mesmo um regime de propriedade mui singulares dentro do marco estatal. Ao longo dos últimos séculos, esta particularidade objectiva demonstrou-se numha evidente antifonia segundo o auge da economia atlântica ou mediterrânea imperasse no âmbito continental. O lógico, quando se dam interesses diferentes até a contradiçom entre duas realidades, resulta separar a sua administraçom para nom prejudicar as populaçons que as padecem. A entrada na UE, aquela imolaçom da economia produtiva galega em favor seica dos interesses gerais espanhóis, acrescenta o exemplo recente mais visível.

Porém, a questom nom se reduz a umha indiscutível diferença física e económica. O verdadeiramente axial para explicar o liderado galego nos rankings negativos espanhóis, em contraste coa sua riqueza, reside na nossa subalternidade histórica. Se duas realidades economicamente diferentes até o confronto se encontram baixo a mesma gerência, pode prejudicar-se quando menos umha delas, sim. Mas, quando atopamos um desenho deliberadamente dirigido a que isto aconteça em benefício da outra, a situaçom agrava-se. Galiza foi condenada a um papel de fornecedora de matérias primas e mao de obra barata dentro do projecto nacional espanhol.  Os processos que achegam mais valor a um produto som os de transformaçom, nom os de extracçom. Pois bem, a maior parte das matérias primas que de aqui se tiram som elaboradas noutras terras. Por riba, Citroen, Inditex, Fenosa, Endesa, Alcoa, Villar Mir... a maioria das grandes empresas que exploram os nossos recursos e o nosso trabalho, tributam fora da Galiza. Ainda assim, para rematá-la, recebemos de Madrid 1.300 milhons de euros menos do que lhe aportamos cos impostos. Os mapas de produçom e consumo eléctrico no Estado tampouco deixam lugar a dúvidas e traçam um retrato fiel do que significa a verdadeira colonialidade interior na Europa.

Neste tempo de reconfiguraçom do sistema mundo e do espaço europeu em particular, a postraçom dos estados do Sul no marco da crise nom só nom abole este desenho interno senom que o intensifica. Nom há mais que olhar para a evoluçom das cifras galegas actuais. Por isso, além do muito que nos emocione o «Día de La Hispanidad», da República Espanhola ou da Pátria Galega, a única Galiza viável passa por umha mudança do modelo produtivo em que seja a nossa cidadania a única que decida sobre a economia do seu território. Também pola nossa inserçom em amplos espaços económicos e solidários alternativos aos actuais, abofé, mas desde nós próprios, sem intermediários.

Por outra banda, esta inquestionável diferenciaçom física e a evidente subalternizaçom histórica inter-relacionam-se directamente coa qualidade democrática da nossa sociedade. A primeira gera umha personalidade colectiva, umhas respostas comuns a umhas necessidades partilhadas, umha cultura e mesmo, como no nosso caso, umha língua própria. A segunda minoriza-as frente às do centro de poder económico e decisório forâneo. Destarte, as características próprias acabam identificando inevitavelmente as classes populares e o atraso no entanto as de fora às classes dirigentes e à modernidade. Ainda que a assimilaçom ao alheio se estender até erradicar mesmo o idioma próprio, a dialéctica da inferiorizaçom há prosperar enquanto a situaçom de subordinaçom se mantiver. Velaí que os galegos espanhol falantes seguem tentando aproximar a sua variante à madrilenha numha dependência sem comparaçom nas comunidades que carecem de língua de seu. Pola mesma, também continuam a fazer chacotas e giros em galego para identificar coloquialmente a ruralidade ou a classe baixa.  Endebém, isto acontece quando a populaçom rural é a menor da nossa história, quando os galego falantes já somos minoria e quando a maior parte do precariado, gente nova, fala espanhol. Por outra banda,  folga afundar nas conseqüências que produz nos galego falantes a inquestionável posiçom do espanhol como língua de ascenso social. Dito nos termos clássicos, a alienaçom do explorado vira-se aqui também alienaçom cultural. Sabemos que nom pode existir democracia sem cidadania e que nom há cidadania sem auto-aceptaçom nem confiança nas capacidades próprias. A história ensina que a  única maneira de atingi-las passa forçosamente pola auto-organizaçom independente. A luita do povo negro em USA, a feminista e, por suposto, o processo de descolonizaçom do século passado oferecem exemplos irrefutáveis neste sentido.

Além de mais, o próprio desenho institucional do Estado espanhol supom a principal garantia de continuidade do agravo contra a cidadania que mora na Galiza. Os galegos vivemos numha área que contém a metade de núcleos de populaçom de todo o território estatal. Administrar semelhante dispersom da mesma maneira que gerimos a concentraçom em «pueblos» da meseta nom é razoável. Assim, reger-nos mediante concelhos artificiais que racham as nossas comarcas naturais, os vales dos rios, resulta ideal para multiplicar o gasto público. O mesmo que manter quatro deputaçons provinciais a colidir em funçons coa administraçom autonómica. Historicamente estas duas instituiçons, concelho rural e deputaçom, cumprírom o papel de evitar qualquer ajejo de democracia na Galiza. As redes caciquis coas que se começou a identificar o nosso país no século XIX tenhem a sua origem neste mesmo traçado que nos impujo o nascente Estado espanhol daquela. As grandes máfias partidistas estatais levam-se beneficiando das tramas clientelares galegas desde que se realizárom as primeiras eleiçons. O caciquismo que padecemos endemicamente é inerente à administraçom do Estado na Galiza, nom ao próprio país, como ironicamente pretendiam e pretendem os grandes partidos dos regimes «turnistas» espanhóis. Ao cabo, o papel que exerciam o Partido Liberal e o Partido Conservador na I Restauraçom Borbónica é continuado agora na II por PSOE e PP.  Mas, além do carrejo e do feudalismo eleitoral, a divisom do voto em quatro circunscriçons permite aberraçons mais evidentes como que governe a Xunta com maioria absolutíssima um partido com apenas o 45% do voto emitido, o 27% do censo.

O caciquismo que padecemos endemicamente é inerente à administraçom do Estado na Galiza, nom ao próprio país, como ironicamente pretendiam e pretendem os grandes partidos dos regimes «turnistas» espanhóis. Ao cabo, o papel que exerciam o Partido Liberal e o Partido Conservador na I Restauraçom Borbónica é continuado agora na II por PSOE e PP.  

Nom resulta estranho, assim, o desapego da nossa populaçom face às instituiçons que padecemos. O povo galego possui a média de abstençom eleitoral mais alta ao longo do regime do 78. De regra, só seis de cada dez cidadaos da Galiza acodem a votar nas instituiçons da monarquia parlamentar espanhola. Sendo rigorosos, as leis fundamentais que regem sobre nós, constituiçom e estatuto, só convencérom umha minoria do 46 e do 20% do censo galego em cadanseu referendo. Nesta perspectiva, qualquer ruptura democrática que nom se alicerce na destruiçom destas estruturas artificiais para umha nova institucionalidade adaptada à nossa realidade desde nós mesmos vai resultar falaz.

Nos anos noventa, o zapatismo impactou a derrotada esquerda europeia coa sua apariçom. Tanto, que cheguei a conhecer estudantes do centro de Madrid que se proclamavam zapatistas embora nunca cultivassem um eido de milho ou escuitassem umha palavra em tzeltal. Sempre resulta mais doado fascinar-se co sucesso alheio, até identificar-se com ele, que construir um próprio. Do mesmo jeito, um projecto extraordinariamente efectivo para a realidade onde agroma pode resultar profundamente idiotizante, no sentido grego, ao impor-se noutro espaço diferente. E que tem a ver todo isto com Podemos? Pois que é umha injustiça que umha pensionista galega, que cobra 300 euros menos que umha madrilenha, pague a mesma selvajada pola luz a umha empresa que tributa fora. Que a cousa chega a bulra cruel quando mora ao pé dum encoro com microcystina, de dous parques eólicos e de duas mini-centrais hidráulicas que desflorestárom a ribeira. E que isso nom o vai arranjar Pablo Iglesias desde Madrid ainda que estatalice as eléctricas ali. Ou que Monedero jamais compreenderá o que sofre um galego falante numha entrevista de trabalho, como nom entende que nos podamos independizar da sua ideia essencialista da Espanha multissecular.  E porém, para desfechar eficazmente o cadeado do 78, a umha realidade diferente cumpre-lhe umha voz de seu que se some às outras em igualdade mais que um «prietas las filas» desde Madrid. Sim, independentemente de se gostamos da rojigualda, da tricolor ou da estreleira. Como se somos do Celta, do Dépor ou do Atlético de Madrid.

Por isso tam ilusionante resulta o crescimento de Podemos como preocupante a falta de respeito que demonstra polos cidadaos da Galiza. Isso é o que significa ao cabo nom reconhecer-lhes a necessidade de soluçons específicas a problemáticas distintas. 

Por isso tam ilusionante resulta o crescimento de Podemos como preocupante a falta de respeito que demonstra polos cidadaos da Galiza. Isso é o que significa ao cabo nom reconhecer-lhes a necessidade de soluçons específicas a problemáticas distintas. Umha formaçom política artelha-se como o modelo da sociedade que promove. Constitui um melhor indicador ideológico a sua estrutura, funcionamento e prática real que os ideais que afirme defender. Nom há mais que ver as máfias vinculadas a PP e PSOE. De que servem pois os cantos à livre decisom dos povos dalguns dirigentes de Podemos se na prática política mantenhem a estrutura organizativa do Estado unitário? Em que lhe ajuda à cidadania galega que pareça que se pode à conta de nom lhe deixarem poder a ela? Por isso nom vou votar em Podemos, ainda que festeje os seus triunfos além do Mançanal igualinho que celebrei o de Syriza na Grécia, com alegre cautela.