Que é para ti Galiza, hoje?

Há já muitos consensos em relaçom ao que é a Galiza e, por serem consensos, eu partilho-os. Etimologicamente, é a evoluçom de Gallaecia, o termo que inicialmente serviu para denominar o território das e dos callaeci, umha das tribos que encontrárom os romanos ao superarem o Douro na conquista da Península ibérica. Do ponto de vista geográfico e histórico, conhecemos por Galiza a parte mais norte-ocidental da Península ibérica, umha unidade territorial que politicamente foi mais extensa do que hoje. Do ponto de vista linguístico-cultural, é a pervivência, durante mais de dous milénios, da língua e da cultura (nomeadamente da primeira) gestadas preliminarmente nos conventos romanos lucense e bracarense, consolidadas no reino suevo imediatamente posterior e que tivérom o seu esplendor na Baixa Idade Média com a lírica trovadoresca. De como este particularismo cultural pudo sobreviver desde o Medievo até hoje praticamente sem instituições autónomas que lhe dessem coesom continuamos a surpreender-nos e a debater ainda na atualidade. Isto é o que explica que a Galiza continue a ser reivindicada nos dias de hoje, e já desde o século XIX, como sujeito político potencialmente detentor de maiores quotas de autodeterminaçom por alguns setores da sociedade. Considerada suficiente ou nom, a Comunidade Autónoma pola qual nos governamos na atualidade está assente no programa político dessa reivindicaçom que nos acompanha desde entom.

Como consideras que será a Galiza dentro de 10 anos?

Em dez anos nom vai mudar o fundamental. Acho que os consensos descritos acima permanecerám e até podem ampliar a sua base de apoio. Quer dizer, penso que a Galiza como identidade linguístico-cultural e como sujeito político nom será posta em questom por nenhum agente político e social representativo. Poderá haver resistência a propostas de maiores quotas de afirmaçom política, mas nom me parece que vaiam surgir dinâmicas estáveis que tendam a reduzir a Galiza a um mero espaço geográfico ao estilo do que acontece no Estado francês. Polo contrário, creio que nas novas gerações de galegos e galegas, tenham a posiçom política que tiverem, vai crescer a identificaçom com todos os elementos que nos tornam comunidade, incluídas as instituições próprias.

Como gostarias que fosse Galiza, idealmente? Como entendes que se pode chegar aí?

Parto da ideia de que gostaria que a Galiza fosse o que a maioria dos galegos desejassem que fosse, e que esse “ser” assente em consensos o mais amplos possível. Parece óbvio, mas nom é, pois ainda nom existem mecanismos de participaçom conjunta que permitam decidir em relaçom à organizaçom política de que nos queremos dotar. Em qualquer caso, partindo dos consensos que já descrevim nas respostas anteriores, acredito numhas instituições que tenham por missom, entre outras, o cuidado do património linguístico, cultural, ambiental e paisagístico da Galiza, quer dizer, a preservaçom daquilo que torna a Galiza especial em relaçom a outras partes do planeta. Nom se trata de umha defesa essencialista da idiossincrasia, senom de ir (re)valorizando os elementos que no futuro poderám assegurar tanto o nosso próprio interesse nesta terra como o dos nossos vizinhos e vizinhas e o dos cidadãos e cidadãs do mundo em geral. Trata-se, em definitivo, de dar o máximo valor ao que de melhor temos, para favorecer o nosso progresso económico e social num mundo que tenderá a ser cada vez mais igual. Creio que os povos que consigam equilibrar a influência externa com a afirmaçom do próprio, fugindo de qualquer tentaçom impositiva sobre os indivíduos num sentido ou noutro, terám um futuro promissor. Falta resolver se a comunidade autónoma que temos e os políticos que a governam terám capacidade para orientar a Galiza nesse sentido. Talvez seja precisa mais autonomia ou outras gerações de políticas e políticos mais esclarecidas. Talvez, mas nom é o lugar para eu me pronunciar sobre isso.

Poderá haver resistência a propostas de maiores quotas de afirmaçom política, mas nom me parece que vaiam surgir dinâmicas estáveis que tendam a reduzir a Galiza a um mero espaço geográfico ao estilo do que acontece no Estado francês. 

Que aspetos e sectores devem ser prioritários para conseguirmos melhorar como sociedade? Como consideras que se devem garantir serviços públicos universais e de qualidade?

A meu ver, o cuidado do património linguístico, cultural, ambiental e paisagístico devem orientar a política galega a longo prazo. Isso nom quer dizer que devamos esquecer outras áreas ou setores com maior repercussom no progresso económico a curto prazo ou com maior incidência na qualidade de vida das pessoas, como a educaçom ou a saúde. Porém, para mim, umha boa Administraçom galega seria sobretodo aquela que se encarregasse de fomentar o turismo só até onde começa a humanizaçom insensata de todos os nossos ecossistemas. O mesmo para o transporte, que umha boa Administraçom nom deveria tornar sinónimo de construçom frenética de mais autoestradas. Som só dous exemplos. Quanto aos serviços públicos, universais e de qualidade, nom me parece que no seu conjunto estejam em causa neste momento, polo menos de um ponto de vista político. Nom digo que no futuro nom acabem por impor-se as ideologias que desejam reduzir a universalidade destes serviços, mas por enquanto os debates em relaçom à possibilidade de alguns serviços públicos ou a como devem ser garantidos som mais técnicos que políticos... e tecnicamente nom estou preparado para responder.

Que perspetiva tens sobre a Galiza no mundo? Com que espaços e culturas deveria aprofundar o seu relacionamento?

A imagem da Galiza no mundo depende das suas instituições e da capacidade que elas tenham de gerar relações de forma autónoma. Esta vocaçom é mui débil por parte das instituições galegas, estejam nas mãos que estiverem. Em geral, a maioria dos agentes políticos têm o seu modelo político em Madrid e alternativamente, neste momento concreto, há quem olhe para Barcelona, mas ainda som incapazes de gerar um relacionamento autónomo com o mundo para além do Estado espanhol. Em relaçom aos povos basco e catalám, a afirmaçom da identidade galega e a reivindicaçom de instituições próprias têm sido fracas e, quando existírom, fôrom produto da transposiçom mimética das estratégias regeneradoras destoutras nações do Estado. Isto nom é mui encorajador, já que que a sorte das instituições galegas (fundamentais para o mundo fazer ideia de nós), tem dependido e está a depender em excesso da sorte de outras. Um dos exemplos que me parece mais claro disto que estou a dizer é a distância dos galegos em relaçom ao espaço lusófono. A razom profunda dessa distância é que Portugal e o Brasil nom fam parte da agenda espanhola, ao contrário do País Basco e da Catalunha. Isto traduz-se num desconhecimento total da cultura ou da política dos países lusófonos (mui poucas pessoas galeguistas saberiam dizer o nome do presidente da República e do primeiro ministro português, por exemplo) e por sua vez numha grande resistência a diluir as fronteiras (ortográficas, culturais e institucionais) com esses países. 

A razom profunda dessa distância é que Portugal e o Brasil nom fam parte da agenda espanhola, ao contrário do País Basco e da Catalunha. Isto traduz-se num desconhecimento total da cultura ou da política dos países lusófonos e por sua vez numha grande resistência a diluir as fronteiras.

Para onde deveríamos caminhar coletivamente como país, ao teu ver?

Sem excluir a possibilidade de que no futuro se voltem a repetir situações como a do passado outubro na Catalunha e que cenários semelhantes venham a abrir a possibilidade da livre autodeterminaçom dos povos de Espanha e mesmo da Europa, o que exigiria outro tipo de resposta, eu opino que sobre a base da Galiza consensual que temos atualmente já podemos construir umha Galiza verdadeiramente interessante para ser vivida polas novas gerações de galegos e galegas e reconhecida por quem nos observa de fora. Penso que nessa construçom irá participando cada vez mais gente que agora imaginamos oposta a umha Galiza mais autónoma, pois provavelmente daqui a uns anos a filiaçom política das pessoas nom terá a relevância que tem hoje e o que estará em confronto serám diferentes visões geracionais do que é a Galiza. Assim, no quadro autonómico, existirá certa margem para avançar consensualmente:

  • Na implementaçom de leis mais estritas de proteçom de espaços naturais galegos e do ambiente em geral.
  • Na implementaçom de políticas mais decididas em prol da sustentabilidade dos espaços habitados, limitando sempre que possível a nova construçom de prédios e infraestruturas viárias.
  • Na implementaçom de leis de respeito pola integridade física e psicológica dos animais.
  • Em dinâmicas que limitem a marginalizaçom de coletivos, maiorias ou minorias, e o sofrimento das pessoas diferentes.
  • Na afirmaçom de umha identidade galega, fundamentalmente lingüística, que seja compatível com os interesses comunicativos das novas gerações de galegos. A língua continuará a ser importante para a economia galega (no ensino, na comunicaçom impressa e audiovisual, no mundo artístico e editorial) e acho que a sociedade galega deve pensar bem o que pode fazer com todo esse potencial. 

Apesar de que muitos quisérom ver o direito de autodeterminaçom como contrário à globalizaçom, acho que, em sentido contrário, os Estados vam ter que fazer um esforço enorme para parar a vontade de muitos povos de dotar-se de instituições.

Que representa para ti a soberania e que impacto tem (ou deve ter) na vida diária da gente?

Deve simplesmente aproximar às pessoas a capacidade de tomar decisões políticas, sejam estas quais forem. Creio que nom seria interessante para a humanidade que existisse um único modelo de organizar a vida coletiva e por isso acho que os povos, com os seus âmbitos territoriais, devem continuar a gozar de soberania, nom ilimitada, mas a suficiente para garantir um mundo diverso. Ora bem, o que nom me parece interessante é que as pessoas nom tenham capacidade para, através do seu voto, ampliar ou reduzir a soberania ou o território em que ela se exerce. Se esta questom se democratizasse a nível global, quantos conflitos evitaríamos? Apesar de que muitos quisérom ver o direito de autodeterminaçom como contrário à globalizaçom, acho que, em sentido contrário, os Estados vam ter que fazer um esforço enorme para parar a vontade de muitos povos de dotar-se de instituições.

Que referentes consideras interessantes e com reconhecimento ainda insuficiente na sociedade?

Sem dúvida, o reintegracionismo ou lusismo é um desses referentes cuja falta de reconhecimento poderia dar como resultado, no futuro, um defecitário aproveitamento da principal herança coletiva que recebemos: a língua. Esta falta de reconhecimento era fácil de entender ao longo dos anos 80, em que os sectores partidários do galego como língua independente do português ganhárom a batalha política ao reintegracionismo. Porém, em 2018, nom se justifica esta marginalizaçom. O reintegracionismo nom só nom desapareceu senom que cresceu, nomeadamente a partir da extensom da Internet. Também cresceu a vontade deste movimento de participar na construçom da Galiza sem o fazer a partir da contracultura.

Qual é o modelo de língua(s) que achas ótimo para termos na Galiza?

É evidente que o espanhol e o inglês vam ter um papel fundamental na Galiza do futuro; por isso, nom deveríamos atrasar mais o domínio da língua internacional por parte das novas gerações de galegos e galegas. Dito isto, acho que o que é urgente agora é discutir que espaço damos ao galego entre duas línguas tam potentes. Creio que o primeiro é assegurar que os diferentes modelos de galego se reconheçam mutuamente como válidos e interessantes para o progresso cultural da Galiza e para a própria língua em si mesma. Na Galiza temos dous modelos: o autonomista e o reintegracionista. O primeiro, ensinado nas escolas e usado pola Administraçom galega, é facilmente identificado como próprio polos falantes, porque assenta nas falas galegas e noutro modelo, o castelhano, bem conhecido por todos e todas. O segundo nom é oficial para a Administraçom galega, mas sim em oito estados do mundo, o que lhe confere grande valor. Este segundo modelo tem, por sua vez, maior estabilidade formal e projeçom comunicativa. Os dous modelos som úteis e devem coexistir pacificamente, colaborando e reforçando-se. Umha política linguística orientada nesse sentido (que na AGAL chamamos “binormativismo”) há tempo que se aplica noutros países europeus como o Luxemburgo ou a Noruega. Hoje poderá parecer-nos que ainda fica longe, mas também acho que cada vez há mais pessoas, no reintegracionismo e fora dele, partidárias de aplicá-la.   

Que modelo cultural (em sentido amplo) estimas interessante para o presente e futuro?

Aquele que, sem preterir os considerados genuinamente galegos, permita o convívio de muitos modelos, próprios e alheios, quantos mais melhor.