Que é para ti Galiza, hoje?

Mais do que pensar aquilo que a Galiza é, numa identidade sempre em mudança, penso muito mais em “como está” a Galiza. Os meus pensamentos não são otimistas, antes o contrário. Seja como for, acho que a Galiza atual continua a ser um território com uma forte identidade nacional, embora diluída e mediatizada pela sua pertença a Espanha. Eu gostava de viver num país orgulhoso do seu passado e confiado no seu futuro, mas não parece ser o caso. Nesta Galiza real em que eu vivo sobeja o egoísmo e o “salve-se quem puder”. A Galiza parece-se demasiado ainda co País dos Ananos de Celso Emílio. E dói. Mas Galiza é o meu país, o lugar onde escolhi viver, uma nação como qualquer outra em Europa, com ou sem forma de estado. Desde hai bem anos, desde adolescente, penso arreu na Galiza, um lugar mais ou menos mítico que artelhava projetos e emoções. O que é a Galiza foi mudando para mim conforme mudaram as minhas circunstâncias vitais. Hoje vivo a Galiza em um concelho rural do Interior, com tudo o que isso significa, e estou envolvido num projeto político municipal, o do BNG, que tem uma visão do país que, óbvio é dizê-lo, não é a maioritária. Mas seja como for, perguntavas-me que era para mim a Galiza e acode à minha mente a conhecida poesia de Manuel Maria, que me faz buscar e atopar Galiza em mim todos os dias, ou também penso naquela reflexão de Vicente Risco, para quem a Galiza não era pequena, mas sim “o mundo”. Sim, a Galiza é o mundo e um mundo para mim, porque é o pedaço de mundo que piso, e está feito de pessoas, de animais, de um território vivo… que será depois algo abstrato que construo na minha mente, que hoje me causa dor e frustração, que gera a partes iguais esperança e desapontamento. Enfim, a Galiza é o meu país, o pedaço de mundo em que vivo, para bem ou para mal.

Como consideras que será a Galiza dentro de dez anos?
    
É difícil saber. Se as cousas continuarem assim, com o atual governo e caso não houver umha mudança de rumo, cabe ser muito pessimistas, e pensar num colapso geral, quer dizer, um território em maos de duas ou três grandes empresas, com uma população envelhecida, onde a mocidade carece de perspetivas de uma vida digna e tem que migrar para outros países do mundo desenvolvido (Inglaterra, Suíça...). Som pessimista a respeito do futuro político, social e cultural da Galiza, da sua viabilidade como território; ora bem, apesar, como digo, esperar o colapso do país em 10 ou 15 anos, vejo-me obrigado a pensar alternativas, a não baixar os braços, e agir. E volto sempre para Antonio Gramsci, o entranhável e lúcido político sardo, que fazia sua a frase de Romain Rolland quando dizia aquilo de “pessimista com a inteligência, mas otimista pela vontade”. Aventuro que muitas e muitos de nós pensamos assim, vemos com pessimismo o futuro da Galiza. Eu som pessimista, sim: acho que estamos mal governados, julgo que não há nem muita consciência de estarmos mal governados nem da hipótese de o governo e a democracia ser outra cousa. Mas som tamém realista; sem lutar não me poderei reconhecer na Galiza daqui a dez anos.

Se as cousas continuarem assim, com o atual governo (...) cabe ser muito pessimistas, e pensar num colapso geral, quer dizer, um território em maos de duas ou três grandes empresas, com uma população envelhecida, onde a mocidade carece de perspetivas de uma vida digna e tem que migrar

Como gostarias que fosse Galiza, idealmente? Como entendes que se pode chegar aí?
    
Umha terra dona de si, dos seus recursos, postos ao serviço da gente, onde prima o coletivo antes que o individual e onde as políticas públicas são pensadas a médio e longo prazo. Sonho uma república que assegura reconhecimento e justiça, com políticas redistributivas que dignifiquem a vida no rural e nas cidades, que demostrem a existência de alternativas a este capitalismo devorador. Não há fórmulas mágicas, não há atalhos, mas gostava de uma Galiza com um governo que não teimasse em destruír a paisagem, a história, o seu património cultural. Se aposto hoje na política municipal é porque julgo que é nos concelhos onde podem ser concibidas e postas em andamento soluções novas, novos caminhos mais limpos e honestos, menos condicionados polo ruído dos poderosos. Partilho a conhecida frase, acho que é un provérbio africano, que diz algo assim como “gente normal, em locais pequenos e fazendo cousas pequenas consegue mudanças extraordinárias”.

Acho que a Galiza devia ter a sua própria agenda internacional: já agora, priorizando as relações com Portugal, designadamente co Norte de Portugal, mais tamén com as outras fisterras do Atlántico: Bretanha, Irlanda, Gales...

Que aspectos e sectores devem ser prioritários para conseguirmos melhorar como sociedade?

Uma sociedade onde há pessoas vivendo na rua não é uma sociedade justa. Nem pode sê-lo um país onde haja pessoas com fome. A Galiza é um país que vive com as esperanças amputadas desde há muito tempo. Por isso temos estas taxas tão altas de suicídio. A primeira obriga de uma república devia ser assegurar um mínimo vital, por dignidade e por justiça. Porque a política devia ser isso, bem comum. Despois desse mínimo, assegurar uma alimentação “espiritual”, a educaçom primária, secundária e superior, porque sem ela não teremos uma cidadania consciente, apenas súbditos. Devemos dar a batalha por conseguir uma cidadania alfabetizada, menos manipulável. Acreditamos que hoje já não existe o analfabetismo e infelizmente não é certo. Cada vez é maior o individualismo e o consumismo, o isolacionismo moral, o “todo vale” ou mesmo o “nada vale para nada”. Aliás, é fulcral garantir o direito a uma sanidade pública, de qualidade e gratuíta. A partir de aqui, todo é sumar, desde que haja um pulsão coletiva, um desejo de construir juntos o bem comum. Em definitivo, para uma república os serviços públicos devem ser prioritários, lutando contra a fraude fiscal mais do que se faz hoje e privilegiando sempre o comum, assegurando a todas as pessoas um mínimo vital, sem beneficência nem caridade, e com o objetivo de decrescer no consumo e na produção, para cuidar o ambiente, este paraíso que nos trasmitiram os avôs e as avós com o seu trabalho, e legá-lo nas melhores condições a quem vier atrás nossa.

A primeira obriga de uma república devia ser assegurar um mínimo vital, por dignidade e por justiça. Porque a política devia ser isso, bem comum.

Que perspectiva tens sobre a Galiza no mundo?

Como nação, Galiza devia ter direito a decidir o que quer ser, um estado ou umha região da Espanha. Para mim a questão identitária não é uma questão menor, mesmo que não é nem deva ser a única, é claro. A Galiza deve poder decidir com quem deseja aprofundar nos relacionamentos culturais e económicos, sem aceitar passivamente o que outras nações, outros territoritórios decidem por nós. Nesse sentido, a Galiza deve decidir com quem fala e com que não fala, com quem prefere trabalhar e artelhar relacionamentos prioritários. Nesse sentido, acho que a Galiza devia ter a sua própria agenda internacional: já agora, priorizando as relações com Portugal, designadamente co Norte de Portugal, mais tamén com as outras fisterras do Atlántico: Bretanha, Irlanda, Gales... E penso assim sempre que a Galiza foi dona de si, olhou sobretudo para o Atlántico, e muito menos para a Meseta ou o o mundo Mediterráneo.

O primeiro passo devera ser pensar mais em equilibrar o território, ordenar a casa, marcar prioridades: que queremos fazer do monte, que fazemos do nosso património historico e cultural, que mínimo vital garantimos no espaço urbano e no espaço rural...

Para onde deveríamos caminhar colectivamente como país, ao teu ver?

Uma das coisas mais frustrantes, pelo seu efeito paralizante, é o egoísmo que a democracia liberal tem incutido na nossa personalidade coletiva. Dantes era comum pensar aquilo de pensar em termos de casa, de aldeia, de paróquia, em definitivo, pensarmos em termos coletivos. Trabalhava-se pela Galiza dos netos e netas. E acho que um dever é fazermos viável a nossa presença sobre o território, pensando que os ritmos da natureza não são os eleitorais. Por outra parte, sei bem que mudar isso é dificílimo, porque a nossa estrutura demográfica é a que é; dificil portanto pedir uma visão de futuro. Portanto, o primeiro passo devera ser pensar mais em equilibrar o território, ordenar a casa, marcar prioridades: que queremos fazer do monte, que fazemos do nosso património historico e cultural, que mínimo vital garantimos no espaço urbano e no espaço rural... e decidirmo-lo entre todas e todos, nom desde uma atalaia de esclarecidos a quem se lhe entrega o país para que produza lucros e equilibre a balança de empresas multinacionais.

Que representa para ti a soberania e que impacto tem (ou deve ter) na vida diária da gente?

A soberania é poder decidir sobre os assuntos públicos, sobre aspetos identitários, sim, de reconhecimento, e aspetos económicos, também, que fazemos com o que é nosso, quer dizer, aquilo que tem a ver com uma justiça redistributiva. Soberania é construír uma identidade a partir de valores compartidos e tem a ver, na minha opinião, muito com dignidade e com liberdade. Soberania é utopia, mas é tamém condições mínimas para viver com dignidade, no lugar e com as pessoas que eu quero. A soberania, en fim, é um ideal mas que como qualquer ideal não faz sentido sem ter conexão com a vida diária. Soberania é decidir que quero em todas as facetas da vida, tanto com questões identitárias (Quem som? Quem quero ser?) como com questões de justiça e redistribuição. Se falarmos em soberania, falamos em empoderar as pessoas e convertê-las em cidadás conscientes e críticas, que escolhem o que querem e não querem nas suas vidas, nas relações interpessoais, nos relacionamentos com as instituições, com as empresas. A soberania tem a ver com liberdades de expressão, mas tamém com dignidade, com direitos económicos. Dantes falava-se em “autodeterminação”. Pois bem, julgo que a soberania é empoderamento coletivo, determinar coletivamente que queremos e como o conseguimos, garantindo os direitos sociais, políticos e económicos, frente à arbitrariedade do Poder e poderes que disfarçam o lucro privado de interesse público.

Que referentes consideras interessantes e com reconhecimento ainda insuficiente na sociedade?

Por prudência, porque sei que vou esquecer alguém que o merece, direi apenas que em geral a Galiza está necessitada de referentes femininos e de presença pública das mulheres. Temos uma mulher, Rosalía de Castro, que é todo um universo, mas acho que há muitas mulheres que no dia a dia seguem o seu exemplo. Acho em falta mais mulheres no ámbito público. Mais além de reconhecer a sua importância no âmbito privado, é imprescindível exigir mais mulheres em postos de decisão, quer na empresa privada, quer e sobretudo na administração pública e na política.

Qual é a tua perspectiva sobre a ensino (na Galiza e no mundo), e que modelos deveriam ser tidos em conta para ser implementados?
    
A minha perspetiva sobre o ensino foi mudando. Comecei com uma visão muito ideal do ensino, se calhar iludido sobre a capacidade real que temos de mudar a sociedade nas aulas. Decorridos uns anos, sou céptico quanto à nossa capacidade real de provocar mudanças sociais ou de formar uma cidadania crítica, mas tento ser honesto e dar o meu melhor, porque acredito no importante papel nivelador que tem o ensino público. A concorrência no campo da “formação” é muito grande e nós somos, de longe, o coletivo menos prestigiado. Na teoria toda a gente concorda em que o professorado desempenha um papel importantíssimo, mas na prática estamos permanentemente questionados pelas famílias ou pelos meios de comunicação, que promovem um ensino “divertido” e já agora forâneo (finlandês), antes que reflexivo, crítico e cívico... e de País. A educação não está na agenda política, apesar do que parece. Ninguém (quase ninguém) se importa realmente em ter uma lei educativa de consenso. Porém, não acredito que as culpas se repartam igual. As direitas tenhem sequestrada a educação, e cientes da importância do ensino regrado para formar uma cidadania livre, pulam numa direção concreta: mais computadores, igual a mais qualidade educativa. Seja como for, por muito que a crítica contra o coletivo do professorado seja quase sempre destrutiva e por vezes malintencionada, verifico como as famílias se demitem, em termos gerais, de funções educativas, carregando em exclusiva sobre as nossas costas a reponsabilidade de educar. Assim, tenho a sensação de nadar a contra corrente, teimando em questões pelas que ninguém se importa.

As direitas tenhem sequestrada a educação, e cientes da importância do ensino regrado para formar uma cidadania livre, pulam numa direção concreta: mais computadores, igual a mais qualidade educativa.

Depois há outra questão. O ensino público galego é hostil ao galego. Obviamente as culpas estão partilhadas e nem sempre é responsabilidade das políticas do governo. Mas acredito na importância do ensino para transmitir e reproduzir o galego às seguintes gerações. Acredito num modelo de escolas democráticas onde o galego seja lingua veicular e não uma lingua estrangeira, onde se prémie o esforço e o pensamento crítico, com verbas para atender a cada vez maior diversidade nas aulas e já agora, verbas que incentivem a formação contínua dos e das docentes não apenas em inglês ou em software, criando também uma carreira estimulante. Há muita vocação frustrada, e é mágoa porque há muitas pessoas que abandonam por falta de apoio e um ambiente hostil. Perdemos muitos conhecimentos e habilidades.

Qual é o papel que deve ter o conhecimento (histórico e filosófico) nesta sociedade de hoje, desde o teu ponto de vista?

É uma frase muito batida, mas não podemos caminhar para a frente sem saber aonde é que queremos ir, qual o nosso horizonte, da mesma maneira que eu sou quem som por todas as vivências dos anos passados, que irão condicionar as minhas actuações futuras. A história ou a filosofia problematizam a realidade, relativizam certezas e dogmas e contribuem para criar uma cidadania crítica, poderosos mas que combatem o Poder. Cidadãs e cidadãos que pensem mais e que depois façam mais do que opinam, escutando antes de falar. Precisamos uma aposta real da administração educativa pela leitura e não apenas, como digo, pelo inglês e por introduzir os computadores nas aulas. Afinal, a filosofia deve ser estar sempre presente no currículo, porque nos ajuda a pensar e a atuar de maneira coerente e honesta, a sermos críticos e a não dar nada por certo. Anos atrás lia a Paulo Freire, o pedagogo brasileiro, que falava em alfabetizar para ensinar a ler o mundo, a interpretar de maneira crítica o que nos vem dado, sem certezas, com todas as dúvidas, caminhando por vezes juntos, por vezes afastados. O dado histórico e geográfico não presta se não está acompanhado da filosofia, entendida como uma reflexão sobre o ser, sobre aquilo que somos e queremos ser, ou sobre o que fomos mas já não somos.