Que é para ti Galiza, hoje?
O lugar onde nasci, o lugar onde hoje resido e sobretudo: o lugar onde desejo permanecer. É o meu espaço de relaçom e vivência. Um espaço que em ocasions me incomoda, mas com o que sempre acabo reconciliando-me.

Como consideras que será a Galiza dentro de 10 anos?
Creio que vai ser um lugar do que vou gostar menos do que hoje. De nom mudar as tendências nas que levamos tempo imersas, será um lugar que estará mais perto de desprender-se completamente da sua essência, da sua cultura, da sua identidade. Um lugar arrasado pola globalizaçom cultural.

Como gostarias que fosse Galiza, idealmente? Como entendes que se pode chegar aí?
Gostaria dumha Galiza orgulhosa de seu. Dumha sociedade consciente. Umha sociedade com mais equidade, em que as mulheres pudessem ser livres para ser o que desejarem, menos consumista e mais respeitosa do ponto de vista ambiental. Umha Galiza em que poder educar crianças para ficar, nom para marchar. Como conseguir isso? Pois nom sei, mas seguramente se isto acontece será porque fomos quem de  incrementar o nível de reflexom da nossa sociedade. Consumimos compulsivamente os discursos que os meios elaboram para nós, sem parar-nos a analisar cumha perspectiva crítica as mensagens que transmitem. Vivemos num mundo em que a publicidade substituiu a informaçom e o consumo à reflexom. Penso que essas som as barreiras a derrubar se queremos que as cousas mudem. E nom só na Galiza.

Que aspectos e sectores devem ser prioritários para conseguirmos melhorar como sociedade? Como consideras que se devem garantir serviços públicos universais e de qualidade?
Antes referi dous elementos fundamentais, mas baixando à realidade concreta e centrando-me fundamentalmente na segunda das perguntas: temos que ser conscientes de que aspirar a ter uns serviços públicos de qualidade e universais nom é aspirar a umha utopia. É algo perfeitamente possível, o problema é que conseguirom convencer-nos da sua inviabilidade. “Nom nos podemos permitir umha sanidade de qualidade”. “O que é público é menos eficiente”. “Os processos coletivos oferecem piores resultados”… Estas afirmaçons, e muitas outras bem parecidas, nom som mais que mantras que se repetem por todos lados. Slogans liberais que levavam anos agachados no discurso político, mas que a crise legitimou. Aceitamos como verdades absolutas o que nom som mais que meros posicionamentos ideológicos que nos levam décadas cara atrás. E que, a propósito, até há bem pouco à imensa maioria da sociedade pareciam-lhe inaceitáveis.

Que perspectiva tens sobre a Galiza no mundo? Com que espaços e culturas deveria aprofundar o seu relacionamento?
A mim interessam-me as culturas que me som mais próximas, nesse senso o espaço da lusofonia para mim é bem atrativo. É mais, há tempo que mesmo desde um ponto de vista profissional tenho dirigido cara este espaço muitos dos meus interesses. A minha língua demonstrou-me que é umha ferramenta útil para relacionar-me profissional e pessoalmente dentro do meu país, mas também me abre a porta a um par de centos de milhons de pessoas. Dar aulas em Portugal ou em Brasil e que o alunado te entenda perfeitamente ilustra bem o que digo.

Para onde deveríamos caminhar colectivamente como país, ao teu ver?
Cara a um país que fosse capaz de oferecer condiçons de vida o suficientemente atrativas para que a gente moça nom tivesse que ir-se. Lamentavelmente isto nom se está a dar na Galiza.

Que representa para ti a soberania e que impacto tem (ou deve ter) na vida diária da gente?
Soberano é quem tem poder de decidir. Eu acredito que umha parte importante dos problemas económicos e de perda de identidade que estamos a padecer estám relacionados com esta ausência de soberania.

Que referentes consideras interessantes e com reconhecimento ainda insuficiente na sociedade?
Há muitos, mas a mim preocupa-me mais o grande reconhecimento que têm muitas pessoas que representam valores que deveríamos rejeitar.  

Qual é a tua visom geral sobre a economia galega, nomeadamente no que tem a ver com o sistema agrário? Que horizonte estimas necessário ter de aqui a 10 anos?
Eu gosto mais de falar dos espaços rurais que do sistema agrário. Mais do 70% do nosso território é rural, e neste espaço há cabida para infinidade de atividades. Lamentavelmente, estamos a viver de costas a estes espaços, só os percebemos como algo problemático: pensamos na perda de populaçom, no abandono de aldeias, no envelhecimento,… Gostaria de viver numha sociedade que fosse capaz de visualizar as áreas rurais nom como um problema, senom como um recurso. Um recurso que estamos renunciando a aproveitar. Penso que as áreas rurais precisam dumha nova política, e isto ficou bem de manifesto na enésima vaga de lumes que padecemos. É deprimente ver como a sociedade aceita explicaçons simplistas do acontecido: os incendiários, a seca, os montes que nom estám limpos,… Aceitamos qualquer explicaçom que nos liberte de culpa. Todo com tal de nom reconhecer que num país com 1.600.000 proprietárias de fincas rústicas, todas somos culpáveis do que acontece no rural.

Que papel deveriam ter as perspectivas do feminismo na sociedade, ao teu ver?
Se aspiramos a umha mudança na sociedade, o feminismo tem que ser por força um dos motores desse câmbio. E vejo que temos ainda muito caminho por andar. Como mai resultou-me aterrador comprovar que o meu filho de 6 anos aprendeu na escola que umha boa forma de ferir a alguém é dirigir-se a el empregando os adjetivos na sua forma feminina. Apenas um pequeno exemplo de todo o caminho que nos queda por diante.