1) Que é para ti a Galiza, hoje?

Uma comunidade imaginada regionalmente mas não nacionalmente. Para a imensa maioria das pessoas o esquema arbóreo é Bruxelas-Madrid-Santiago e muito poucas são capazes de imaginar Bruxelas-Santiago. Isto tem consequências importantes na hora de administrar e sentir o território, as pessoas e as suas produções. A língua, falo como especialista nesta área, é uma vítima desta autovisão.

2) Como consideras que será a Galiza dentro de 10 anos?

A língua penso que é o grande sintoma, o indicador melhor do estado de cousas e das direções que a sociedade galega pode tomar. Eu trabalho, com muitas mais pessoas, na AGAL e noutras entidades, para que a nossa língua ganhe presença social, que faga parte da vida das pessoas. Se no futuro não conseguirmos isto, a Galiza será essencialmente o que é agora. Se dentro de dez anos, a ILP Valentín Paz Andrade é desenvolvida a sério e existe uma política institucional da língua portuguesa, a sociedade será outra e a sua auto-imagem também. Pensemos apenas no ensino secundário. Pensemos em todas as crianças e adolescentes que passam por esse espaço social. Na atualidade, a imensa maioria, depois de 10 ou 12 anos e de dezenas de docentes, não sabem que a Galiza tem duas línguas internacionais. Não sabem que o galego serve para entrar no planeta linguístico do português. Eu soubem por acaso, porque havia colegas de aulas que ouviam Caetano Veloso e liam Pessoa. Não se pode construir uma realidade diferente para o galego e a Galiza com acasos mas sim com estruturas, com decisões globais e com o afã de que aumente o bem-estar da sociedade galega. A outra questão chave é a transmissão intergeracional. Se os pais galego-falantes com vontade de transmitir a língua às suas crianças, uma minoria como se sabe, não o podemos fazer, tudo vira uma fantasia. Neste sentido a única via nas áreas urbanas, e na maioria das vilas, é a iniciativa social para a criação de escolas, como é o caso conhecido das Sementes. Infelizmente, a maioria do galeguismo tem dificuldades para tomar consciência de que o ensino estatal na Galiza é, antes de mais, estatal, e não vai facilitar a manutenção da comunidade galego-falante. Foi criado, e é muito eficaz na sua missão, para criar cidadãos espanhóis e na comunidade imaginada que é Espanha, o monolinguismo é um dos alicerces. Portanto, internacionalização e transmissão intergeracional são as chaves para “tentar” mudar o statu quo. Fora disso, como décadas de factos nos mostram, é vagar nas ilusões necessárias.  

3) Como gostarias que fosse Galiza, idealmente? Como entendes que se pode chegar aí?

Gostaria que fosse uma sociedade que valorizasse as suas produções, uma sociedade inclusiva onde primasse o mérito sobre o clientelismo, que permitisse as pessoas darem o melhor de si, ligar com os seus dons, o que melhor sabem fazer. Gostaria de uma sociedade onde não tenha grande importância o superficial (físico, riqueza monetária, religiões -mesmo as laicas-, origens…) e sim as capacidades das pessoas, a sua vontade de se realizarem, da dar e de receber, de ser feliz, em resumo. Como se chega aí? Galiza tem muito de sociedade extrativa (em oposição a sociedade inclusiva). Uma sociedade extrativa é aquela gerida quase em exclusiva por uma elite que extrai quase tudo para si. Para ser um extrator é preciso ter um bom relacionamento com o poder e aderir acriticamente à sua forma de ver e agir. O foco é extrair. Vamos colocar um exemplo no plano linguístico, que é o que melhor conheço. A língua galega é gerida por uma elite galeguista em sintonia com as elites políticas que, como sabemos, não são galeguistas. Aplicaram uma estratégia para a língua e a cultura que se revelou ineficaz na hora de deter a dissolução da língua da Galiza na língua do estado. E não só, muitas pessoas e entidades que têm como missão aumentar a presença social do galego foram, e são, invisibilizadas por promoverem outra forma de ver e de viver a língua que, talvez, seja melhor que a promovida nos últimos 35 anos. Em resumo: Temos sobre a mesa um problema de difícil solução e que exige o melhor da sociedade galega (neste caso a substituição e dissolução da nossa língua). É aplicada uma estratégia sem contar com muitas pessoas e entidades que querem resolver esse problema. E a estratégia é errada mas as elites galeguistas querem continuar “extraindo” e não “incluem” aqueles que tiverem uma estratégia diferente. Isto pode ser levado a muitos aspetos da realidade social galega.

4) Que perspetiva tens sobre a Galiza no mundo? Com que outros espaços deveria aprofundar o seu relacionamento?

Temos um facto incontornável: a língua portuguesa nasceu no noroeste da Península Ibérica, portanto nasceu na Galiza. Qualquer governo, qualquer administração que tivesse como foco elevar o bem-estar da sociedade que administra tiraria o máximo partido deste facto. Como sabemos, não é o caso do governo da Galiza. Que a sociedade galega tenha relacionamentos com o mundo que se expressa em castelhano é lógico e como é lógico é feito. Que a sociedade galega tenha relacionamentos com o mundo que se expressa em português é lógico, e como é lógico mas não satisfaz os interesses de parte das elites galegas… não é feito. Com isto perdemos todas. Pense-se em tudo o que permite o saber da língua castelhana: oportunidade laborais, acesso a conhecimento, acesso à criação artística sem intermediários (texto, audiovisual, música)... e aplique-se ao saber do galego internacional. Este é o lugar da Galiza no mundo, a única comunidade que bebe nos mananciais das duas línguas latinas mais faladas no mundo. Não está nada mal para começar. Ora, o tema é andar nessa direção.

5) Que representa para ti a soberania e que impacto tem (ou deve ter) na vida diária da gente?

Em adolescente ouvia, muito, o grupo basco La Polla Records que cantava aquilo de “Quiero soberanía personal, mi representación soy sólo yo”. Uma sociedade é rica, pode-se mesmo chamar de sociedade, quando há muitas soberanias pessoais. O extremo contrário é uma sociedade obediente a priori, uma sociedade formada por pessoas delegativas porque sim. Quando numa sociedade há muitas soberanias pessoais, os acordos são mais entre iguais, mais maduros e os resultados são bem melhores que em sociedades clientelistas e delegativas. Uma Galiza soberana só será possível com muitas soberanias pessoais e deveria traduzir-se em políticas que beneficiem, realmente, a sociedade galega, não a pequenos grupos de algum lugar mais ou menos longínquo.

6) Que modelo de relacionamento entre língua(s) entendes como ótimo para Galiza?

No livro que elaborei com JR Pichel, O Galego é uma Oportunidade, indicávamos que as potencialidades da língua castelhana eram aproveitadas 100% pola sociedade galega. Esse aproveitamento é potencializado polo estado e o mercado. O mantra é: o castelhano vale para tudo e é internacional. Polo contrário, o galego é desaproveitado polo comum da sociedade essencialmente porque o estado, e de aí o mercado, construíram uma imagem da nossa língua como sendo local, dependente do castelhano e pouco útil. Se tivesse que pensar em modelos, pensaria em línguas plurinacionais que convivem com línguas estatais: francês no Quebeque (com o inglês), castelhano em Porto-Rico, neerlandês na Flandres (com o francês) ou alemão no Friul italiano. Por quê? Em todos estes casos, para além da saúde social da língua, as sociedades não cortam as asas dos seus idiomas. São vividas no seu cento por cento. São modelos muito diferentes dos que, infelizmente, ainda emanam do galeguismo (bretão, galês, basco...). Por que é tão importante esta vivência? Porque de aí nasce o relacionamento que se pode ter com o castelhano. Se o galego é uma língua local, rural e útil para quase nada o seu relacionamento com o castelhano vai ser bem diferente de se o focamos como uma língua internacional. Só esta segunda vivência pode alterar o estado de cousas. E não temos muito tempo.