Que é para ti Galiza, hoje?

Galiza, do meu ponto de vista, é uma nação periférica situada no interior do Estado espanhol, o qual —segundo tem por costume desde há séculos e a atual situação catalã demonstra, exatamente como antes ocorreu com a basca— nega qualquer possibilidade de autogoverno real às nações que o integram. Uma nação, aliás, que possui um forte sentimento nacional e uma baixa consciência de dito sentimento, quer dizer uma nação “sentimental”, com auto-estima não muito alta, à que lhe custa trabalho formalizar politicamente esse sentimento, ainda que, na minha opinião, estão a abrolhar certos signos, se queres mui elementares, de mudança. Uma nação complexa, na que se apresentam confrontados sintomas de avanço e retrocesso, na que desce o número de falantes em galego e na que, ao mesmo tempo, aumenta o número de pessoas monolíngües neste idioma, na que medra a emigração de gente nova e na que raparigas de 16 ou 17 anos levam tatuado no seu ombro a legenda “denantes mortos que escravos”, na que, numa situação de devalo da imprensa escrita, a sociedade formula a hipótese de tirarmos um diário em galego ou na que o tipo de música que triunfa em Nova Iorque ou Berlim tem aqui, realizada em galego, representantes significativas seguidas por milheiros de pessoas. Uma nação, em resumo, contraditória, cousa que, ao meu ver, é mui positiva porque da contradição nasce a dialética, o movimento e a possibilidade de mudança.

Como consideras que será a Galiza dentro de 10 anos?

Gosto muito, e acostumo repeti-la, daquela frase de Mark Twain que afirmava que “é difícil fazer predições, nomeadamente as que atingem o futuro”. O meu comportamento nunca inclui a atividade profética, entre outras cousas porque se algo ensina a História é a sua imprevisibilidade. Quem ia prever, na primavera de 1989, a queda do muro de Berlim poucos meses depois? Quem ia imaginar, há agora um ano, que se vivesse uma situação em Catalunha como a que estamos a viver, embora sabendo que o Estado espanhol nunca nos defrauda no que a repressão atinge? Quem não consideraria um grande sucesso, no abrente do 1 de dezembro de 2002, 20.000 manifestantes em Compostela na marcha contra a maré negra do Prestige, quando, na realidade, 150.000 pessoas foi o número resultante? Quem prediria, em 1985, com o nacionalismo galego “cativo e desarmado”, dizia-se, que este se ia converter na segunda força do país catorze anos mais tarde? O único que se pode dizer a respeito do que me perguntas, é que a Galiza de dentro de dez anos vai ser uma realidade que não vai coincidir com nenhuma das previsões de hoje. Em relação com isto, desejaria sublinhar que o futuro se constrói desde o presente com esforço, trabalho e um determinado conjunto de atitudes mentais, psíquicas. E entre este conjunto deve figurar uma confiança nas nossas possibilidades e capacidades de incidir sobre esse futuro. Digo isto porque existe uma corrente que age entre setores com grande consciência de país que, alagados polo derrotismo, teimam, de maneira quase compulsiva, no desesperado da situação e na dificuldade de avanço. Essa formulação, que, com efeito, nasce da dor e do amor ao próprio, não contribui em nada a gerar confiança senão mais bem ao contrário: a criar pessimismo e abandono ao induzir o pensamento de que tudo está praticamente perdido.

«Existe uma corrente que age entre setores com grande consciência de país que, alagados polo derrotismo, teimam no desesperado da situação e na dificuldade de avanço. Essa formulação, que, com efeito, nasce da dor e do amor ao próprio, não contribui em nada a gerar confiança senão mais bem ao contrário: a criar pessimismo e abandono.»

Como gostarias que fosse Galiza, idealmente?

Isto é mais fácil que a pergunta anterior, o qual não quer dizer que se corresponda com a realidade. Gostaria poder chegar a ver uma Galiza independente, em que as pessoas que nela moram pudessem decidir todo o que tivesse a ver com o seu destino, nos âmbitos político, social, econômico e cultural. Uma Galiza em que existisse uma verdadeira democracia, muito diferente ao que hoje vivemos, que é simplesmente um sistema de liberdades formais que, de vagarinho, se vai também perdendo, para irmo-nos adentrando no que Badiou chama um “fascismo democrático”, quer dizer um sistema em que governa quem não se apresenta às eleições, em que se vota quando tocar e no que se respeitam rigorosamente os resultados sempre que a gente (Grécia, Itália, Catalunha) vote coincidindo com os desejos do poder, em que as pessoas temos que cumprir a lei, mas que essa mesma lei não a cumpre o Poder, seja este o econômico, o político, o judicial ou o mediático. Um lugar que não considerasse que a Lei é o alicerce da democracia, mas que tivesse em conta que os autênticos esteios da Democracia são a Justiça, a Liberdade e a Igualdade, questões estas, a propósito, das que não se ouve falar nunca e muito ausentes da realidade atual.

Que aspectos e sectores devem ser prioritários para conseguirmos melhorar como sociedade?

Como sempre, as cousas mudam quando existem no interior da sociedade desejos de mudança. Falei antes da questão da auto-estima e da consciência do nosso, e nesse sentido, na medida em que a generalidade do povo galego percebesse as suas produções como merecentes de ocuparem a primeira linha no concerto das nações, o caminho começaria a se clarificar. Tentando contestar à pergunta, ocorre-se-me que os setores que deveriam ser prioritários são aqueles em que a Galiza, historicamente, ocupou posições de relevo: a agricultura, o gado, a pesca, a construção naval e indústrias que delas derivassem, como a alimentar e o I+D+I associada a elas, com o que isso implicaria, aliás, no freio da deslocação de gentes do mundo rural para o urbano e, naturalmente, os da cultura e o pensamento. De todos os jeitos, preferiria não opinar sobre este tema, já que o meu desconhecimento nesta matéria é mui notável.

Que perspectiva tens sobre a Galiza no mundo? Com que espaços e culturas deveria aprofundar o seu relacionamento?

Bem, eu penso que a Galiza é uma nação que deveria estar no mundo como estão outras nações que possuem aproximadamente a sua superfície, a sua população ou o seu PIB por habitante, como por exemplo —e dependendo dos apartados que acabo de sinalar— os casos de República Checa, Portugal, Croácia, Polônia ou Israel. A Galiza deveria poder relacionar-se como se relacionam entre elas —cultural, econômica, desportivamente...— sem a mediação, normalmente castradora, do Estado espanhol. Como é lógico, esta relação teria de ter matizes e gradações, condicionadas pola vizinhança geográfica e cultural e neste sentido uma área de relação fundamental seria a da Galeguia ou Lusofonia, um conjunto de territórios nos que vivem uns 270 milhões de pessoas a falarem a nossa língua e entre os que se acha um gigante econômico e cultural como o Brasil. Abrir as portas à cultura escrita e oral em idioma galego-português implicaria podermos dispor duma imensa cultura científica e humanística no nosso idioma e, neste sentido, não deixa de ser surpreendente o caráter localista da Junta de Galiza, erguendo muros, fronteiras e pejas à entrada da cultura universal num idioma que, para além de intencionadas diferenças gráficas, é praticamente idêntico ao galego. Porque não se trata só de facilitarem as leituras de Eça de Queirós, Pessoa, Saramago ou Lobo Antunes, não. Se a Junta se decidir a derrubar as barreiras das que falo, da mão do galego-português entrariam Einstein, Stephen Hawking, Fernand Braudel, Balzac, Newton, Platão ou Descartes. O que ocorre é que, polo que estamos a ver, o poder político que age na Galiza prefere com grande diferença que a cultura que se consome na Galiza se veicule através do espanhol antes que do português, a outra variante do galego. Naturalmente, sendo a Junta a grande responsável, uma certa parte de responsabilidade deve-se outorgar à Real Academia Galega e, notadamente, ao Instituto da Lingua Galega que, no ano 1971, ditadura franquista, dirigido por Constantino Garcia —uma pessoa de fora da Galiza, que levava apenas cinco anos no país e que não tinha nem uma soa publicação em galego— rompeu um consenso histórico de 250 anos e começou um relato segundo o qual “galego e português são duas línguas distintas” e que havia gente que tentava que “todo o mundo falasse português”.

«Abrir as portas à cultura escrita e oral em idioma galego-português implicaria podermos dispor duma imensa cultura científica e humanística no nosso idioma e, neste sentido, não deixa de ser surpreendente o caráter localista da Junta de Galiza, erguendo muros.»

Para onde deveríamos caminhar colectivamente como país, ao teu ver?

Eu penso que o fundamental para que, na situação que for, um país avance em sentido positivo —aqui haveria que se pôr de acordo, antes de mais, no que entendemos por sentido positivo— e caminhe orgulhando-se de si mesmo, é que conheça, ame e considere sem dúvidas a sua cultura, a sua língua, a sua identidade, a sua paisagem, a sua gastronomia, o seu território, as suas capacidades produtivas, as suas forças políticas, sociais e culturais: em resumo, o conjunto das suas possibilidades materiais e intelectuais, sendo consciente, aliás, que a sua Singularidade é única no mundo. Quer dizer, que os elementos que lhe são próprios são a sua achega específica e original à Universalidade e que se esse contributo chegasse a desaparecer suporia uma perda para o próprio país e para o conjunto da humanidade. A diversidade e complexidade sempre supõem riqueza e a redução e simplicidade pobreza, seja no território cultural, no das espécies animais, no reino vegetal ou na robustez duma nação. Neste sentido, a Galiza, do meu ponto de vista, deveria caminhar afiançando os valores que lhe são próprios, limpando a sua cultura dos elementos mais conservadores, reacionários e injustos e afiançando os que se acham situados à beira da Justiça, da Liberdade ou da Igualdade. Isso implicaria um reconhecimento crítico do passado e uma projeção para o futuro sem perder de vista a decisão e a confiança nas próprias forças. E isso, inevitavelmente, conduziria a um país mais livre, mais justo e mais democrático.

Que representa para ti a soberania e que impacto tem (ou deve ter) na vida diária da gente?

Podemos dizer que a soberania é um dos nomes possíveis que recebe a liberdade. A soberania é a capacidade de decidirmos qualquer aspecto que atinja as nossas vidas, da mesma maneira que, no âmbito do individual, o constitui o divórcio, que hoje possui ampla aceitação. Em realidade, num contexto como o atual, que poderíamos chamar de capitalismo real, de verdadeira face do capitalismo, sem máscaras, a soberania é inexistente, mesmo a que se aplica a territórios que possuem estruturas de estado, como se pode ver com claridade no caso do Reino de Espanha, que atua com contundência e, se é preciso, pulando acima da lei, contra nações que se acham no seu interior, mas se arrasta de maneira submissa perante Alemanha ou a União Européia e cedendo soberania a instâncias superiores. Hoje, polo contexto em que nos achamos, associa-se o termo ao direito de autodeterminação —ou ao seu eufemismo, o direito a decidir— mas essa noção de soberania vai muito além de decisões que atingem o territorial. O feito de que a gente pudesse decidir qualquer aspecto das suas vidas, nos âmbitos político, social ou econômico, não só no que atinge a questões territoriais, e a relação que decidir estabelecer com o Estado —autonomia, federação, confederação, independência— significaria a existência duma sociedade distinta à que vivemos. Dito isto, se consideramos a soberania do ponto de vista territorial, o impacto que teria sobre as condições de vida da gente haveria de ser essencialmente positivo. Acostumam-se formular dúvidas sobre a viabilidade duma Galiza independente, quando em realidade a pergunta que nos deveríamos fazer é mais bem a viabilidade da Galiza baixo o atual domínio do Estado espanhol.

«Os grandes meios de comunicação que agem na Galiza, sem exceção, viram as costas a qualquer fator relacionado de maneira íntima e interessante com o país. No que atinge a questões culturais, de identidade ou que simplesmente procurem a valorização do nosso, os grandes meios atuam silenciando-as ou mudando-as em folclore, no pior senso da palavra.»

Que referentes consideras interessantes e com reconhecimento ainda insuficiente na sociedade?

Em geral penso que a imensa maioria da sociedade não reconhece o que envolve a pergunta a respeito dos referentes, porque os grandes meios de comunicação que agem na Galiza, sem exceção, viram as costas a qualquer fator relacionado de maneira íntima e interessante com o país. No que atinge a questões culturais, de identidade ou que simplesmente procurem a valorização do nosso, os grandes meios atuam silenciando-as ou mudando-as em folclore, no pior senso da palavra, como se pode observar na sua atitude impermeável face o valor mais imediato da nossa nação, como é a língua. E no que se refere ao tratamento doutros aspetos, sociais, econômicos, políticos, esses meios agem dando a versão mais anti-galega de todas as possíveis, reconduzindo os discursos e levando-os no caminho da falta de apreço, da indiferença, da pobreza do país ou do seu papel subvencionado e com capacidades criativas muito limitadas. Nesta situação não é fácil os referentes culturais, políticos ou sociais terem reconhecimento na sociedade. Mas é preciso combatermos para que assim seja.

Qual é o papel que deveriam ter na sociedade a cultura, nomeadamente a literatura e a fotografia?

Pois deveriam jogar os roles que lhe são próprios: serem meios de expressão cultural como quaisquer outros, formularem perguntas e interpelarem a sociedade, quer no plano individual, quer no coletivo; procurarem a interação, como dizia dantes, entre a nossa Singularidade e a Universalidade que supõe ou supus o conjunto de culturas existentes no planeta, algumas já desaparecidas; darem conta, do ponto de vista cultural, do estado da questão —que, quase sempre, é a questão do Estado—; esforçarem-se por criar novas Linguagens, novas Poéticas que explicassem o tempo presente, para o qual cumpriria arriscar, romper, formal e conceitualmente, com os velhos paradigmas e formular o Novo, porque se a sociedade vive na mudança, a cultura também deve viver nela, atitude que exigiria fugir da repetição e de fórmulas já falecidas, construir novos trilhos e compreender que a verdadeira informação e o verdadeiro avanço se achou historicamente e segue a se achar na ruptura, na fenda, na interrupção, na descontinuidade; fazerem leituras não óbvias, tentando expressarem a realidade de maneira oblíqua, procurando e contribuindo à aparição dum público exigente, rebelde e combativo. Todas estas cousas, ao meu ver, estão a se fazer em grau mui restrito, oferecendo-se uma cultura pouco cobiçosa, como ocorre, aliás, nas culturas da nossa contorna nas que a repetição e a falta de idéias é notável e onde os agentes culturais se deixam levar por um caminho perigoso, norteado basilarmente polo vetor econômico, polas obras de fácil digestão, pola incompreensível, do ponto de vista democrático, censura ortográfica, aspetos todos eles com certeza esperáveis numa época de crise que não é só econômica, mas política (corrupção), democrática (direitos e liberdades em devalo, xenofobia), cultural (esterilidade criativa) ou ética (o dinheiro como única magnitude).

Que modelo cultural em sentido amplo estimas interessante para o presente e futuro?

Quase se deduz da resposta anterior o modelo cultural no que acredito: um modelo cultural democrático, em que todos os comportamentos e decisões tivessem em conta o interesse geral, da maioria, mas —e isto é muito importante— que considerasse a existência de minorias e que não se guiasse só polos aspetos quantitativos, porque nesse caso estaríamos perante isso que conhecemos como a ditadura da maioria que, como a história e o presente nos indicam, não sempre tem razão. Um modelo cultural que desejasse, de maneira sincera e não só de “peteiro”, erguer o nível cultural do conjunto da população e não procurar, como ocorre agora, inibir a capacidade crítica da gente para, desta maneira, atingir a perpetuação no poder. Um modelo cultural, em resumo, que considere a cultura como uma ferramenta de conhecimento, de interpretação e análise da realidade, de enriquecimento pessoal e coletivo, de dispositivo para caminhar no sentido duma sociedade mais justa, mais livre e mais igualitária.