Que é para ti Galiza, hoje?

Estou ligado à Galiza por amor. Não sei isto responde à tua pergunta. Curiosamente este ano descobri que María Victoria Moreno, homenageada das Letras Galegas 2018, tinha o mesmo sentimento por esta terra. Se faço uma imagem rápida daquilo que é este País, esse é o primeiro sentimento que me surge. A Galiza é um território de emoções e afectos. Todos os passos que aqui dou parecem sempre sujeitos a um processo de transfiguração: a escrita, a minha vida pessoal, as amizades, os projectos. Por outro lado, considero este País de uma riqueza incalculável, a sua história, a sua geografia, a sua cultura, o carácter da sua gente, até o próprio tempo fazem da Galiza um sítio singular e muito especial no mundo.

Como achas que será a Galiza dentro de 10 anos?

Eu gostava que a Galiza pudesse acima de tudo preservar o seu idioma. O Galego foi para mim uma descoberta imensa, poder ouvir e falar este idioma fez com que reconfigurasse o meu próprio imaginário, até mesmo a minha própria visão de Portugal e de ser português. Por outro lado, e pelo que vejo e sinto, sei que será uma tarefa difícil. As políticas actuais não têm favorecido em nada a língua galega e o seu horizonte parece bastante turvo. Há obviamente uma visão positiva, e recorro à palavras de um grande romancista galego, Xabier P. DoCampo, que faleceu recentemente e que tive o privilegio de conhecer: “non podo máis que pensar que a lingua e culturas galegas teñen un futuro próspero e ilusionante, do contrario estaría aceptando que a miña vida foi un fracaso total".  
    
Como gostarias que fosse Galiza, idealmente? Como entendes que se pode chegar aí?

Obviamente, e não querendo entrar em lugares comuns, sei que os grandes desafios de um País tem primeiro que deixar para trás as irreverências políticas que nos continuam a arrastar para dúbias dinâmicas ocupando cada vez mais o espaço da nossa livre decisão e impondo sanções e programas de austeridade. A Galiza está, tal como os restantes Países do sul da Europa, condicionada por um projecto Europeu que falhou. E falhou porque se submeteu aos mercados financeiros, falhou porque perdeu contacto com os direitos sociais dos povos, espalhando a pobreza e o desemprego.  E falhou porque implantou, com um programa planeado de engenharia social, o medo. Um sistema político que salva bancos e condena gerações inteiras a pagar as dívidas e os deficits de uma velha elite demasiada poderosa e não raras vezes corrupta, só serve para lembrar que há ainda muito caminho a percorrer. Avançar e estimular políticas que apostem pela inovação, pelo emprego de qualidade, por praticas ambientais e culturais, pela educação, e neste área parece-me interessante a forma como no futuro iremos ensinar a vida às crianças, e as políticas de igualdade de género, são imperativos de futuro. Mas claro que para isso é preciso uma democracia completa e transparente, económica, social e soberana, que reclame para si a livre decisão que é de todos, do trabalho aos bens comuns, da humanidade em vez da guerra.

"As políticas actuais não têm favorecido em nada a língua galega e o seu horizonte parece bastante turvo."

Que aspectos e sectores devem ser prioritários para conseguirmos melhorar como sociedade? Como consideras que se devem garantir serviços públicos universais e de qualidade?
    
Vivemos uma autêntica revolução digital que vai ditar o  futuro da  humanidade. As sociedades estão neste momento a reconfigurar-se à volta da tecnologia e do digital e mais que nunca, vamos ser pessoas que consumiremos mais, competiremos mais, e teremos esse Deus chamado dinheiro pendendo cada vez mais sobre as nossas cabeças. Vivemos na vertiginosa e implacável fome do imediato. Esta época, como muitos filósofos predicam, já é a da psicopolítica digital: avançamos na via que leva de uma vigilância passiva a um controle activo. O big data ou a inteligência artificial anunciam o fim da pessoa e da vontade livre. O que, do meu ponto de vista, nos precipitará numa crise de liberdade de alcance máximo.
Quanto aos serviços e bens públicos, eles são um instrumento de dignidade e justiça e a sua existência outorga um reconhecimento à cidadania juntamente com os direitos e os deveres cívicos. Mas é fácil ver que há uma constante desconfiança dos cidadãos em relação às administrações, um colapso da desconfiança fruto da falência democrática, e exemplo disso são as listas de espera ou até mesmo as carências dos sistemas educativos. As administrações têm que conseguir transmitir eficiência e qualidade dos seus serviços para se tornarem credíveis.

Que perspectiva tens sobre a Galiza no mundo? Com que espaços e culturas deveria aprofundar o seu relacionamento? Qual é a tua opinião, mais em concreto, sobre as relações entre a Galiza e Portugal?

A Galiza é a Mãe de uma grande diáspora. Nela guarda-se uma incomensurável riqueza  histórica e cultural, uma língua que deu lugar a muitos mapas. As relações entre a Galiza e Portugal são um imperativo. E acho que se começam finalmente a unir esforços para incentivar esta relação, seja institucional ou de carácter independente. Sinto que Portugal é um pedaço estendido da Galiza. E um português, sobretudo do norte como eu sou, tem uma inquestionável natureza galego-portuguesa. A etnografia, a paisagem, a amizade, a língua, tudo une a terra galega à sua irmã, a portuguesa. E digo isto porque vivo entre os dois lados e sinto física e espiritualmente este sentimento. Acho, muito sinceramente, que os portugueses têm de conhecer mais esta Galiza que está guardada secretamente no seu imaginário.

Para onde deveríamos caminhar colectivamente como país, ao teu ver?

Uma sociedade moderna tem que caminhar colectivamente, só assim se pode trabalhar em prol da coesão social e de uma sociedade sem exclusões. Por exemplo, considero a Galiza muito mais avançada que Portugal na questão das políticas de igualdade de género. Tenho aprendido muito nesta área com o activismo e as políticas que se estão a tentar desenvolver nesse sentido aqui. E quando olho para Portugal vejo que ainda há muito caminho a percorrer. Sinto também que aqui se reivindica mais, protesta-se mais, sai-se muito mais à rua… pois é na rua que nos devemos encontrar, que nos devemos rever como comunidade, onde devemos partilhar ideias e celebramos a vida também. O movimento 15-M, em que as pessoas tomaram as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia directa, foi revelador nesse sentido. É certo que teve vida curta, mas penso de alguma forma ter consciencializado sobretudo a minha geração a introduzirem-se novas formas de se fazer as coisas em comunidade.

"É na rua que nos devemos encontrar, que nos devemos rever como comunidade, onde devemos partilhar ideias e celebramos a vida também."

Que representa para ti a soberania e que impacto tem (ou deve ter) na vida diária da gente?

É curioso porque a soberania pode jogar de diversas maneiras. Em Portugal somos supostamente soberanos e pouco se sente esse sentimento de País. As fronteiras estão definidas, não temos qualquer problema com o idioma, no entanto, andamos todos de costas voltadas. Quando chega o momento de vender o conceito de nação, esperamos ansiosamente pelas cerimónias protocolares, os congressos internacionais ou até mesmo as grandes celebrações desportivas para propalar uma espécie de vazio cívico. A soberania deve ser um elemento de união e de construção de uma identidade de relação com os outros, essa vida diária da gente, como bem dizes. Por outro lado considero que o Parlamento não representa o país tal como o conhecemos. As pessoas expressam a opinião no voto, não retiro nenhuma legitimidade, mas o sistema eleitoral e o sistema democrático em que supostamente vivemos tem muitas insuficiências. Enquanto tivermos sociedades assimétricas, em que uns detêm o saber, o conhecimento e o dinheiro e os outros não têm nada, há uma parte fraca que está mais exposta à mentira, à manipulação.

Que referentes consideras interessantes e com reconhecimento ainda insuficiente na sociedade?

Tal como Paul Valéry defendia “a actividade criativa do espírito deve ser encarada como fundamental para a conservação da vida”. A ordem digital retirou-nos da ordem terrestre. Como referi anteriormente, as cidades são hoje autênticos centros de consumo, parques temáticos onde nos devoramos narcisicamente por uma selfie. Somo viajantes sem qualquer tipo de experiência. Ficamos ao corrente de tudo sem adquirir com isso conhecimento algum. Acumulamos amigos e seguidores sem experimentarmos nunca o encontro com alguém diferente. Depois parece que o tempo se atomizou. “Não tenho tempo” é o que hoje em dia mais se diz. Outro dia ouvi, de uma amiga poeta, esta frase super instigante: “A velocidade faliu”. A velocidade é uma forma silenciosa de violência e esta época “da pressa” parece levar-nos a uma falência, de facto. Somos cada vez mais homo laborans onde a produção e o consumo parecem as únicas actividades possíveis. Não foi este o futuro que sonhamos, pois não? E por isso, e respondendo à tua pergunta,  acho fundamental recuperar esse tempo, esse espaço para nós, para a comunidade, para o espírito criativo, para o silêncio também. Esse tempo da celebração, da festa, da poesia.

Qual é o papel que deve ter a cultura na sociedade de hoje, desde o teu ponto de vista?

Considero que a cultura, nas suas diversas dimensões, tem de ser usufruída por toda a comunidade porque só dessa forma conseguirá ganhar influência no processo de transformação social. Artaud afirmava algo com o qual me identifico muito: "não penso que a coisa mais urgente seja defender uma cultura cuja existência nunca salvou um homem da preocupação de viver melhor ou ter fome, mas extrair do que chamamos de cultura as ideias cuja força viva é idêntica à a força da fome".